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Desconexão Conjugal

Atualizado: Jul 29




SÍNDROME DA DESCONEXÃO CONJUGAL


A cada ano que passa, tenho observado crescer uma dinâmica disfuncional em vários casamentos, que se agravou nesse período de pandemia em que vivemos. Depois de analisar pensamento, humor e comportamento de alguns cônjuges diante das crises que estão vivendo, cheguei à conclusão de que os casais estão se desconectando. Essa disfuncionalidade sempre existiu, mas minha percepção é de que no passado ela era menos frequente e se manifestava entre casais com mais de trinta anos de união. Fico assustado em ver que isso está acontecendo num ritmo acelerado, com casais com menos de cinco anos de matrimônio.

Síndrome é o conjunto de sinais e sintomas que caracterizam determinada condição ou situação. Por desconexão conjugal, refiro-me a um distanciamento afetivo, um esfriamento na relação, uma perda de qualidade no tempo que passam juntos e em sua comunicação. Ambos perdem o prazer no tempo a sós – às vezes, mais ainda por parte de um dos cônjuges –, pelo namoro, pela alegria de viver o casamento como uma aventura, uma realização, um projeto de Deus. Desconexão conjugal tem a ver com perder o coração do outro. A relação cai numa rotina, numa mesmice sem graça e sem poesia.


Parte das minhas intervenções, seja em pastoreio, mentorias ou consultório, tem sido no sentido de ajudar maridos e esposas a se reconectarem para, partindo disso, tratarmos as diversas demandas do relacionamento conjugal.


Esse fenômeno tem levado vários casais a optar pelo caminho aparentemente mais fácil: o divórcio. Outros decidem permanecer na relação usando máscaras, sem se dar a conhecer e sem buscar ajuda. Optam por viver debaixo do mesmo teto, entre quatro paredes, porém como dois estranhos. Quando param para “voltar no tempo”, ficam perplexos ao ver como tudo começou e a que situação chegaram.


Mas afinal, o que está acontecendo com os casais?


Há vários fatores que contribuem para esse problema, mas optei por destacar aqui aqueles que considero os principais:


1.Ritmo de vida acelerado: demandas pessoais ligadas a estudos, trabalho, ministério, vão se tornando prioridade sobre a relação. Em muitos casos a intenção é boa, mas a decisão é feita em detrimento do casamento. A pessoa se levanta muito cedo e dorme tarde demais, sem ter tempo para o cônjuge. Mas há também aqueles que desenvolveram um comportamento disfuncional e se tornaram workaholics (viciados em trabalho - “fazedores”)… pessoas que vivem numa insatisfação permanente. Elas fazem o dobro do que um indivíduo normal faria motivadas a provar, por exemplo, que não são fracassadas, buscando sempre reconhecimento e aprovação dos outros. Pessoas com o ritmo de vida acelerado geralmente se encaixam dentro do quadrante um da matriz de gerenciamento pessoal, relacionada àquilo que é importante, mas se tornou urgente. O resultado é cansaço, esgotamento, estresse, ansiedade, porque a pessoa está o tempo todo “apagando incêndios”, na tentativa de resolver conflitos e crises. Em Efésios 5:15,16 o apóstolo Paulo faz uma advertência: “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus.” O ritmo de vida acelerado, invertendo valores e prioridades, é o estilo de viver dos néscios. Mais cedo ou mais tarde, a conta chegará e será muito cara, tanto para a pessoa quanto para a família.


2.Inabilidade na resolução dos conflitos: todo casal tem conflitos por diferentes motivos. Por incrível que pareça, isso mostra que são saudáveis. Ausência de conflitos na relação pode demonstrar uma disfuncionalidade. A questão é saber com que frequência – e intensidade – os conflitos acontecem. Cônjuges com inabilidade em resolução dos conflitos têm prazo de validade. Conflitos nascem de fagulhas que, pouco a pouco, transformam-se num grande incêndio. Se são frequentes e intensos, com o passar do tempo, contribuem para o distanciamento afetivo, frustrações e mágoas. Sem reconhecimento do mal mútuo que estão causando, sem confissão, perdão, arrependimento e reparação, o casal se isola, evitando um ao outro, quebrando a comunhão e levando à desconexão. Amós 3:3 diz: “Andarão dois juntos, se não houver entre eles acordo?” A resposta é óbvia. NÃO. Sem acordo, entendimento, comunhão, não andarão juntos e se afastarão. E isso nos leva ao fator seguinte;


3.Déficit na agenda emocional: com os conflitos frequentes, intensos e não resolvidos, o casal acumula situações estressantes e a relação fica desconexa. Depois de um tempo, percebe-se um enorme déficit emocional caracterizado por mágoas, ressentimento e raiva um do outro. Com a alma ferida, tornam-se incapazes de ouvir o coração de forma recíproca, mesmo quando o que está sendo dito é uma expressão da verdade. Esse quadro torna-se ainda mais grave quando o cônjuge já entra no casamento com um déficit emocional originado no ambiente familiar (quando criança ou adolescente). Se já existia na pessoa um esquema desadaptativo de abandono, privação emocional, desconfiança, dependência, incompetência, o reservatório emocional estará vazio e será necessário procurar amparo profissional para ajudar o indivíduo a lidar com essas questões psicológicas. Em Ef 4:32, Paulo nos entrega um mandamento do Senhor que se aplica a todos na igreja, e igualmente aos casados em Cristo – quando consideramos que, antes de serem marido e esposa, são irmãos em Jesus: Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou.” Sem abrir o coração, sem confissão, arrependimento e liberação de perdão de ambos os lados, a agenda emocional reprimirá a relação, e o casal dificilmente seguirá em frente.


4.Ausência de comunicação: tudo seria mais fácil se, pelo menos, os casais soubessem conversar, ter uma DR (Discussão da Relação). Mas é incrível perceber que a maioria não tem a mínima noção de como ter uma boa conversa, honesta e educadamente. Não conseguem OUVIR sem interromper, sem deslegitimar o que o cônjuge está sentindo, sem buscar primeiro entendê-lo. Não conseguem FALAR com amor, sem acusar, sem julgar, sem levantar a voz, sem ironias. Não conseguem NEGOCIAR demandas simples do dia a dia, relacionadas a casa, agenda, trabalho, filhos, igreja, parentes, dinheiro... a “comunicação” que existe entre eles é superficial. Não sabem como ter uma conversa “da alma”, expressando bem o que pensam e o que sentem. Sem comunicação profunda, de qualidade, é impossível haver conexão – é simples assim. Tiago 1:19 diz: “Sabeis estas coisas, meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar”. Ef 4: 29, 30: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem. E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção.”.


5.Distanciamento de Deus: deixei esse fator por último por considerar ser o centro do que estamos abordando. Guardem bem essa frase: “Quanto mais próximo o casal está de Deus, mais próximo estarão um do outro. Quanto mais longe o casal estiver de Deus, mais longe estarão um do outro.”



A relação com Deus, o Pai, é estabelecida por meio do seu Filho, Jesus Cristo: “... ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). Se marido e esposa, individualmente, já nasceram de novo por obra e graça do Espírito Santo, que convenceu e levou cada um a crer no sacrifício de Cristo mediante arrependimento e confissão para a salvação, então a relação com Deus Pai se tornou uma realidade. Mas uma coisa é ter RELAÇÃO com Deus; a outra é ter COMUNHÃO com Deus. A relação precede a comunhão. Quando a comunhão com Deus é interrompida, o que vemos no cônjuge são as marcas do pecado descritas em Gálatas 6:19-21: “Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam”. Mas quando o cônjuge está vivendo em comunhão com Deus, o que vemos são as marcas do Espírito listadas em Gálatas 6:22-23: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei. E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências”. Viver em comunhão com Deus é desfrutar de uma vida na luz, cheia do Espírito Santo, revelando o fruto dessa comunhão na nossa maneira de pensar, sentir e nos comportar com nosso cônjuge. Essa vida de intimidade espiritual com Deus possibilita a conexão no sentido físico, emocional, espiritual e geográfico do casamento, e nos dá as condições e a capacitação para superar os problemas citados anteriormente – que nos levam à desconexão.


REFLEXÃO


A. Você tem se sentido conectado ao seu cônjuge? Percebe o mesmo na relação dele com você?

B. Quais dos fatores listados estão presentes no seu casamento?

C. Tem algum casal amigo em que você e seu cônjuge confiam para ajudá-los, por meio de mentoria, a resolver esse problema?


SUGESTÃO:


• Compartilhe esse artigo com seu cônjuge e conversem sobre o que refletiram.

• Se precisarem de ajuda, entrem em contato conosco. Podemos mostrar algumas alternativas de auxílio para seu casamento.


Pr. David R. Sales

Miss. Sepal

Psicólogo


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